Educação

Livro de Conceição Evaristo incomoda pais e alunos do Colégio Vitória Régia e Professora é afastada de turma; “Não vamos lidar com uma dor que não é nossa”, disseram os alunos

19 de Novembro de 2021 -Metro1
[Livro de Conceição Evaristo incomoda pais e alunos do Colégio Vitória Régia e Professora é afastada de turma; “Não vamos lidar com uma dor que não é nossa”, disseram os alunos]

Casos de racismo e de censura nas escolas de Salvador foram assuntos de capa esta semana e no mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra

Desta vez o caso é de uma professora de história do Colégio Vitória Régia, no Cabula. A professora foi afastada de uma de suas turmas por abordar o livro 'Olhos D'água', da escritora mineira Conceição Evaristo. 

A obra literária revelou um incômodo aos familiares e estudantes de uma turma de nível médio do colégio particular. “Não vamos lidar com uma dor que não é nossa”, justificaram os alunos. A professora, que não teve sua identidade revelada, é negra, tem 43 anos, com duas décadas de experiência em salas de aula. Ela foi afastada da turma de 40 alunos 15 dias depois, após pedidos de oito famílias contrárias à obra – desde então, proibida de ser mencionada nas dependências do colégio. 

Nesta semana, o Sindicato dos Professores (Sinpro-BA) decidiu levar o caso ao Ministério Público da Bahia (MP-BA), após não obter respostas para as notificações enviadas à unidade privada. Segundo a matéria do Metro1 , a educadora explica que, a princípio, entendeu que, ao afastá-la, o colégio tentou preservar sua integridade física, já que os pais haviam ameaçado invadir suas aulas. O afastamento que acreditava ser momentâneo, contudo, caminha para completar dois meses, contabiliza a professora, que mantém as aulas de história de outras três turmas. 

“A coordenação me disse que as famílias estavam enraivecidas comigo, algumas chegaram a ir até lá. Me sinto insegura, porque nem sequer sei quem são esses pais. Pretendo registrar um boletim de ocorrência e pedir uma medida protetiva”, pontua.

Ana embarga a voz ao recordar o dia da aula remota, quando foi hostilizada após negar-se a pedir desculpas pelo conteúdo de Evaristo. “Racismo é injúria, mas também quando pessoas querem te colocar em posição de subserviência. Jamais me desculparia, em respeito à obra e à autora. Eles não quiseram sentir ‘a dor do outro’, tudo bem. Mas nada mais é do que ter empatia”. 
O ambiente de trabalho se tornou aflitivo para a professora, que há 17 anos leciona no Vitória Régia e em outras três unidades privadas. “É como se a decisão de me afastar fosse um atestado de que estou errada”, lamenta. 

A educadora não supera o fato de que outros cinco professores trabalharam com o mesmo livro em aparente normalidade. Lembra ainda que a obra foi definida em um concurso da Árvore, programa de incentivo à leitura presente em escolas públicas e privadas de todo o país. Segundo a Árvore, ‘Olhos D’água’ é indicado à faixa etária dos estudantes, que têm entre 16 e 17 anos, e chega a ser cobrado em vestibulares como o da Universidade de São Paulo (USP).

Diretora do Sinpro, Cristina Souto afirma que situações que tocam o racismo são recorrentes em ambientes educacionais. “A gente recebe muitas denúncias, as professoras se sentem intimidadas. Então nossa atuação fica muito em cima do desabafo”, considera. Cristina diz que as instituições se colocam “em posição de comércio”, ou seja, acabam por acatar o desejo dos pais-clientes. 


Em reunião com a direção da escola, oito famílias disseram que não admitiriam que a educadora retornasse às aulas, a menos que se retratasse publicamente. Ana não acatou. Em suas redes sociais, chegou a publicar que “não passa pano para racista”, o que motivou novas queixas dos pais e até um afastamento pontual de todas as turmas. “E foi aí que entrou o sindicato. Porque eles se negam a passar os nomes. A busca pelo MP se dá com esse intuito”.

A professora sente que se tornou a “não-grata” da escola, mas não titubeia ao afirmar, em manifesto enviado a outros professores por meio de um aplicativo de mensagem, que é vítima do mesmo racismo que impôs condições precárias à existência de Anastácia – mulher negra escravizada e obrigada a usar uma mordaça que a impedia de falar. "O silêncio contra os nossos corpos continua sendo uma arma. Estão tentando silenciar as professoras negras, escritoras negras".

Pesquisadora da Diretoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis do Instituto Federal da Bahia (Ifba), a socióloga Marcilene Garcia defende que, de forma geral, a educação pública e privada têm dificuldade de cumprir a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), sobretudo no âmbito das leis 10.639/03 e 11.645/08, pois determina o ensino da história da áfrica, culturas africanas, afro-brasileiras e indígena. Marcilene aponta que, em muitos casos, as instituições privadas se constituem como escolas de qualidade superior. “São lugares onde a diversidade étnico-racial, mesmo em Salvador, ‘cidade África’, é invisibilizada”. 

 
“Os estudantes não sabem que a vida dos negros é difícil, com dor e sofrimento? Por que um livro reconhecido causou incômodo numa escola privada?", indaga. Quando uma professora leva Conceição Evaristo à sala de aula, na capital mais negra fora do continente africano, completa Marcilene, ela lhes apresenta as “violências racistas” do cotidiano da maioria dos soteropolitanos: “Histórias são de dor porque de dor tem sido a vida do povo negro no Brasil”.

 
A pesquisadora analisa que há um contexto político favorável à cultura do ódio às minorias. “Com o avanço das ações afirmativas, as pessoas passaram a ver gente negra, ainda que sub-representada, ocupar espaços que nunca ocupou". Marcilene descreve que é como se Conceição – “uma mulher grande”, negra e de cabelo crespo – não pudesse figurar entre as maiores referências da literatura da contemporaneidade. Não sem causar incômodo.

 

Foto: Reprodução

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